Londres, 1605. Um grupo de católicos provinciais revoltosos abrumava-se sobre a perspectiva de detonar 36 barris repletos de pólvora, estrategicamente localizados logo abaixo do Palácio de Westminster. Jaime I, junto de seus partidários aristocratas protestantes e familiares reais, reunia-se em resguardado conclave entre as sóbrias paredes das Casas do Parlamento. Contudo, Guy Fawkes, especialista em armamento e desarmamento de bombas e explosivos em geral, executava o audacioso plano de implodir o símbolo do poderio inglês. Em meio a cerca de 820 quilos de pólvora, Fawkes foi capturado pelo exército britânico, sucumbindo junto à conspiração católica. O dia era 5 de novembro. Durante os meses seguintes, Guy Fawkes foi torturado e mantido prisioneiro até que confessasse seus atos e fosse enforcado publicamente. Quatrocentos anos depois, marcado pelos nomes dos irmãos Wachowski - escritores, produtores e diretores de Matrix (1999), estreou o filme que ajudaria a compor a trajetória de obras de cunho filosófico de Andy e Larry. A obra agora voltava-se para o futuro político da sociedade, tomando como palco para suas projeções ninguém menos que a potência britânica e seu tradicionalismo perene. Vinha à tona V de Vingança (V for Vendetta), 2005.
Evey (Natalie Portman) vive, como muitos ingleses retratados no futuro próximo dos Wachowski, sob o comando de um governo totalitarista. A ditadura impera soberana em todos os aspectos cotidianos da população: são impostos toques de recolher, telefones são grampeados, companhias de comunicação são estatizadas, rígidas forças especiais, nomeadas de Homens-Dedo, guardam as ruas. Forças corruptas, que não se diferem do restante dos governantes e policiais nesse aspecto. Dentre as atrocidades de autoria dos Homens-Dedo, poderia-se contar o estupro de Evey Hammond - não fosse a interferência de um esguio indivíduo mascarado que a protegesse do infortúnio de ter cruzado com os policiais em horário proibido. Vociferando eruditismos e galanteios românticos, o homem se identifica como, simplesmente, V (Hugo Weaving). Em poucos minutos, presenciamos o primeiro ato conspiracionista do mesmo, implodindo, ao som de Tchaikovsky, um prédio do governo. Não por acaso, a máscara usada por V é a face de Guy Fawkes. A partir de então, Evey se vê enveredada pelas peripécias de seu salvador, caçado como terrorista. Envolvida na busca do ideologista pela consciência política da população, para o fim do comodismo ante às autoridades absurdamente totalitárias, e, principalmente, por vingança em nome de atrocidades cometidas pelos ditatoriais governantes no passado, Evey se envolve profundamente com V. Interessante notar que o vingador não assume sua identidade em momento algum do filme, somente se caracterizando por seu símbolo, semelhante ao da anarquia. Desse modo, percebe-se a intenção em representar, nele, a sociedade que usa do direito de se indignar, de exercer sua cidadania. V é uma entidade simbólica que, na realidade, não é um só indivíduo - ou, se preferível, é toda a humanidade em um só emblema. Enquanto os políticos, imundos suínos chafurdantes em alienado patriotismo, se desesperam com a incapacidade em deter o terrorista, nos é revelada, não em seqüência cronológica, mas sim por meio de flashbacks, a história de vítimas de experimentos bioquímicos e golpes financeiros executados pelo Estado. Nela, estão inseridas todas as personagens do enredo, seja de modo direto ou indireto. V passa a tutor de Evey, construindo nela seu alter ego ideal e guiando sua criatura para a perda total do medo da afronta. Durante o processo de amadurecimento dela, vê-se claramente a porção de alienação que tomava parte de sua mentalidade antes do aparecimento da figura tutelar de V. Unida a essa percepção, um analógico trabalho da direção do filme pode ser percebido em várias simbologias da película, tais como a bandeira do partido ditatorial semelhante à suástica nazista; a posição fetal que a garota assume nas cenas em que aparece definhando na cela, retratando seu renascimento interior; ou mesmo as experiências grotescas similares às dos campos de concentração alemães. Ao todo, a obra leva seu espectador à reflexão. Dessa vez, não tão existencial como em Matrix, mas política, lidando com o papel individual na sociedade e o poder cidadão. O final convida abertamente todos a se unirem em um só brado aos ultrajes governamentais, sugerindo preceitos anárquicos e privando qualquer humano de abusos desnecessários. É válida a intenção da obra em oferecer nitidamente a concepção do sistema a que se pertence, fornecendo a noção de que cada qual faz parte de um todo e que uma peça basta para desencadear o caos em uma unidade. Ovações ao efeito dominó à parte, lembrem-se sempre do 5 de novembro.
Por Renan Trindade
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